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Como foi seu EAD hoje?

Notícias · 26 de agosto de 2022

Como foi seu EAD hoje?

Texto originalmente escrito entre abril e maio de 2020, após a proclamação do mote “a USP não para”. 

Por Annie Schmaltz Hsiou

Revisão: Suzana Ketelhut

 

Como foi seu EAD hoje?

Devido a pandemia do Covid-19, professoras e professores de escolas e universidades brasileiras estão no desafio de ministrar aulas em forma remota emergencial, utilizando diversas ferramentas virtuais, com intuito dar continuidade ao conteúdo e conhecimento para as/os estudantes que estarão no outro lado da telinha. A justificativa está sob a ótica de que o ano letivo não pode parar e que é necessário que ainda sejam mantidos os vínculos de apoio e solidariedade com as/os estudantes, que neste momento de isolamento social, ajudam a minimizar diversos problemas, entre eles a solidão, a ansiedade e a frustração nesta parcela da sociedade que vivencia tempos tão difíceis. 

Pouco se fala, mas muitas/os professoras/es estão encontrando inúmeras dificuldades em organizar essas atividades virtuais, independente do formato que serão disponibilizadas as aulas: via vídeo aula, aulas comentadas sob apresentação de slides, vídeo-conferências, “lives”, inclusive utilizando recursos de vídeo do Whatsapp. Especificamente sobre este tema que é dirigido esse texto: sobre nossas dificuldades em exercer a docência na atual conjuntura. É uma mescla da vida real e concreta de milhares de professoras/es que estão neste momento confinados em suas residências, tendo que conciliar a vida privada/doméstica com a profissional. No meu entendimento, a maior pressão recai sobre as mulheres, principalmente as mães ou responsáveis por familiares idosos ou com doenças crônicas. Essas mulheres têm que lidar com a tarefa dos cuidados de seus filhos e responsáveis, somando à jornada doméstica em conjunto com home office ou “teletrabalho”. 

O que vem a seguir é um retrato bastante caricato de toda esta situação: professoras/es com ou sem filhos, neste cenário virtual de aulas à distância. Tenho clareza de que não é homogêneo entre a categoria docente, e minhas observações são totalmente empíricas, coletadas a partir de testemunhos reais, comportamentos e experiências compartilhadas com diversas/os docentes, independente de pertencerem ao Ensino Básico ou Superior, embora o meu enfoque seja maior na universidade.  A partir disso,  categorizei três tipos básicos de docentes que nasceram deste cenário todo, obviamente com um enorme exagero desses personagens fictícios, mas que refletem um pouco da nossa realidade dentro das instituições educacionais. São eles:

  1. Blogueirinha/o: 

Geralmente este perfil é de uma pessoa solteira. Recém contratada/o na instituição. É a/o “moderninha/o” da turma de docentes. Se tiver mais tempo de contratação ou se for casada/o, é considerada/o pelos demais colegas como a/o docente com alto nível de argumentação teórica, bem como de uma oratória incrível. Esta pessoa está literalmente de boa na quarentena. Está confinada há mais de 30 dias. Não tem problemas em gravar suas aulas utilizando seu fone de ouvido e microfone do celular Apple ou Samsung de última geração. A qualidade de voz do seu MacBook Air é incrível. Adora fazer uma “live” no Google meet e “upar” as aulas gravadas no Youtube. Está maravilhada/o com a tecnologia disponível, e as ferramentas de aprendizagem são incríveis no seu ponto de vista. Aprende a utiliza-las lendo todo o tutorial disponibilizado na página oficial da instituição e complementou com as informações do fabricante. Obviamente foi uma ‘startup’ que criou essas ferramentas! Enquanto grava suas aulas e suas ‘lives’, fica imaginando como será sua vida acadêmica após a quarentena. Já projeta que vai poder utilizar esse conteúdo desenvolvido de forma digital quando estiver ausente da instituição, como em viagens e participações em congressos, inclusive nas datas sobrepostas de bancas de pós-graduação. “Uma maravilha! Como eu não tinha pensado nisso! Salva o meu tempo e ainda ajuda as/os estudantes no processo avaliativo e de frequência!”. Esta/e docente ainda vai mais além: “Auxilia na minha avaliação de progressão de carreira! Posso tirar ‘prints’ e incluir nos meus relatórios de estágio probatório de avaliação de carreira. Afinal de contas, estou usando ferramentas pedagógicas através de novas tecnologias e inovando na aprendizagem. Genial! Por hora, infelizmente não tenho tempo para ler artigos sobre ensino a distância. Preciso manter o calendário escolar.”

  1. Influencer: 

Este tipo de docente é uma versão 2.0 da/o docente bloguerinha/o, porque ela/ele tem um “plus a mais”: tem a simpatia das/os estudantes, ou pelo menos ela/ele acha que tem. É uma grande ave, conhecida como pavão. Chega nas reuniões de classe cumprimentando a todas e a todos pelo nome.  É conhecida/o por sua elegância e perfume “marcante”. O cheiro forte de seu perfume inicia uma reação em cadeia de ataques de espirros e tosse em alguns presentes. Sempre senta ao lado da coordenação ou da chefia, afinal de contas, não gosta de dividir seu brilho com ninguém. Na pandemia, manteve sua elegância e astúcia. Está sempre vestida/o como se estivesse em sala de aula. Geralmente usa uma blusa de manga longa tom pastel se for mulher. Se homem, sua camisa de linho preferida: cor caqui. Cabelo impecável. A docente tem uma preparação prévia antes de gravar qualquer vídeo ou participar em videoconferências. Faz uma make bem básica de quarentena: uma camada de base para esconder as olheiras, uma pincelada de rímel marrom para não parecer que está indo para balada, pó natural e iluminador, para dar destaque na câmera. Segundo esta professora, o pó iluminador desperta a atenção discente. De um modo geral a/o docente influencer acredita que está tudo indo bem em sua disciplina. “Está funcionando! Estudantes me enviam mensagens dizendo que minha fisionomia está ótima! Continue assim “profe”, precisamos de mais docentes que nem vocês, com esta força de vontade pra dar aula às 8h da manhã!” O conteúdo está em dia, marca plantões de dúvidas diários com as/os estudantes. Em sua opinião, as/os estudantes estão muito interessadas, pois entregam todas as atividades. “Semana passada pedi uma resenha e um mapa conceitual e 70% da turma enviou as atividades. Os outros 30%, como não responderam os meus e-mails, acho que trancaram a disciplina, já era esperado que fossem trancar. Sempre existe uma parcela de alunos que tranca as minhas disciplinas, porque solicito muitos exercícios. Não me importo muito. Ainda conto com o meu público fiel, a turminha da primeira fila da sala de aula, que é a primeira a se conectar! Minhas aulas já têm mais visualizações e compartilhamentos do que o número total de alunos das disciplinas. Uhulll, viralizou!”. 

  1. Docente perdendo a decência: 

A/o docente deste perfil, tem um “Q” de bloguerinha/o e de incluencer, não podemos negar suas habilidades de comunicação nas aulas presenciais e nas reuniões de colegiados. Alguns desses por vezes são menos comunicativos, sobretudo em espaços de poder, pois geralmente são pessoas mais tímidas e menos desinibidas, mas quando se expressam, muitos ao seu redor ficam surpresos com suas colocações. Se considera um bom profissional docente e se decepciona quando alguma coisa dá errado em sua disciplina, principalmente quando envolve questões de ensino-aprendizagem. Sua vida docente é regida pela relação de mão dupla entre professor-aluno. Nunca se importou com sua aparência. Acredita que pode mudar mentes e corações com suas aulas de caráter espontâneo e lúcido. No isolamento social, é o perfil que mais está sofrendo. Vive na contradição entre o cancelamento do calendário escolar e a manutenção da rede de apoio e de solidariedade com as/os estudantes. Fazer o quê, é um ser que acredita na filosofia docente, na universalização do conhecimento. Todas e todos devem ter as mesmas oportunidades dentro da universidade. É um espaço rico e plural e por aí vai. Por ser assim, muitas pessoas dizem que é um ser “humanizado”, sempre trazendo questões sensíveis em temas mais duros.

Sua vida está de cabeça para baixo. Tem a impressão de estar vivendo no mundo invertido desde o início da quarentena. Passa o dia de pijama ou com suas roupas puídas favoritas em casa. E essas são as únicas roupas de uso pessoal que são lavadas desde então. Acorda na maior tensão, entre a atenção no café da manhã junto com seus filhos ou ter que ligar o computador antes que chegue  às 9h! Não dá conta da enxurrada de e-mails institucionais. Se não entendia antes os emails que vinham da secretaria, agora nem tem a possibilidade de ligar pro ramal da secretaria para tirar a dúvida rapidamente. Porém, tenta com muito cuidado, para não escapar nenhum email de estudante. “Achei! Um estudante precisando de ajuda ou simplesmente desabafando, porque  a vida não tá fácil pra eles também”, fala em voz alta para não se esquecer de responder este email. “Socorro! uma reunião de departamento marcada para agora, mas o e-mail foi enviado na noite anterior às 21h!”. Se conecta loucamente, mas entra na reunião com a tela do vídeo e microfone desativados. Seus filhos estão brincando na sala, pela casa, aos berros. “Coisas de criança, meus colegas irão entender”. Se desloca para outro cômodo da casa, não consegue ligar o vídeo, quer que seus colegas te vejam também… mas não dá, tem um pilha de roupas recém recolhidas do varal. Enquanto isso, uma das crianças pede mamadeira, a outra está quase quebrando o sofá de tanto pular. “Putz, esqueci do TCC, artigo e projeto dos meus estudantes!”. Escreve simultaneamente com videoconferência para seus alunos, se justificando e falando da vida. “Por que eu fiz isso?”. Para tudo perto das 11:30. Hora de ajudar na cozinha. Se não cozinha, é a vez dela/dele cuidar das crianças. Almoço dado. Bota nenê pra dormir. “Merda! Esqueci do plantão de dúvidas!” Envia outro e-mail pedindo desculpa, mais uma vez, na maior cara de pau. Acaba de lembrar que tem que preparar quatro aulas na pós-graduação, o calendário está condensado na quarentena. A pesquisa e a formação das/dos futuras/os pesquisadoras/es não pode parar. “Que droga! Mudaram as regras de bolsas da CAPES! Presidente do CNPq foi demitido!”. A ciência brasileira não vai sobreviver a mais perdas… mas não podemos deixar as/os estudantes desassistidos, eles já estão sofrendo desde 2015 com os inúmeros cortes na Educação Superior”. Tenta gravar uma vez, duas, seis vezes a mesma aula. Não funcionou com os fones do celular no gravador de slides no ‘pptx’. Na sétima vez deu certo. Demorou mais de dois dias pra terminar somente essa aula especificamente. Fica cerca de cinco dias, até às duas da manhã acordada/o atualizando as demais aulas do semestre, pois não consegue trabalhar durante o dia. É intermitente. Os filhos demandam muita atenção. Um filho grita, chamando o seu nome. Pára tudo! Não consegue, pois é hora de se concentrar, está gravando uma aula… Fica preocupada/o se a voz de seu filho apareceu na gravação. “Bola pra frente, só queria ter mais tempo, parece que meu trabalho duplicou”. Quando consegue minimamente terminar alguma tarefa, vem sua filha mais velha e pede ajuda na lição de casa da escola. Fica se perguntando por que tantas atividades a escola envia para seus filhos. Agora é educadora/educador ‘full time’. Cai na real, do outro lado da tela do computador, também deve ter uma /um professora/professor enfrentando as mesmas dificuldades da vida real. “Deixa pra lá. Amanhã fazemos o exercício. Amanhã eu retorno as minhas atividades. Deu pra mim.” Está exausta/o.

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